sábado, 7 de fevereiro de 2009

FESTA DE CABEÇAS CORTADAS

Graças ao Dumas pai, eu e o José Lino Grünewald somos íntimos da Revolução Francesa. Falo da primeira, da autêntica e não da atual. A atual tem um defeito indesculpável: — falta-lhe sangue e, repito, o sangue não jorra como a água dos tritões de chafariz. E, como não há marias antonietas, nem cabeças cor­tadas, o mundo já boceja. Sim, é o tédio antes do Terror (e tal­vez não haja nem o Terror).
Eu e o José Lino Grünewald, com base em nossa experiên­cia de Dumas pai, diríamos que a atual revolução francesa não tem nada de Revolução Francesa. Ainda ontem, Raul Brandão, o pintor, bateu o telefone para mim: — “Como a greve é cha­ta!”. Dava uma opinião pictórica. E, realmente, só tem valor plás­tico a greve metralhada, com operários emborcados na sarjeta. Mas nada mais insípido do que a greve consentida, abençoada, unânime. Imaginem, imaginem: — a própria polícia é grevista também.
Eu e o José Lino poderíamos sugerir ao público: — “Não leiam os jornais. Leiam o velho Dumas”. Falta ao noticiário atual o frêmito, a tensão, a crueldade das Memórias de um médico. Portanto, entendo o comentário restritivo do Raul Brandão: — “Como é chata a greve!”.
Todavia, alguma coisa salva a “revolução cultural” da monotonia irremediável. É um certo suspense, é um certo misté­rio. A França parou. Primeiro, os estudantes e, depois, o resto. Nunca houve tamanha greve. Até os papa-defuntos, até os coveiros, cruzaram os braços. Ninguém morre, por falta de quem o enterre.
Mas eis a pergunta que o mundo faz, sem lhe achar a resposta: — “Por quê?”. Os artigos sobre as greves não explicam nada e por uma razão óbvia: — o inexplicável é inexplicável. A princípio, imaginei que os grevistas quisessem o poder. São milhões e milhões. Portanto, os grevistas têm o que eu chama­ria de onipotência numérica. Não há o que objetar, o que dis­cutir, o que resistir. São milhões e eu imaginei que a história lhes daria o poder imediato.
Engano. Os dez ou 12 milhões de franceses não querem o poder. Vocês entendem? O poder está, diante deles, como um fruto próximo, fácil, indefeso; basta o gesto de colhê-lo. Mas ninguém se dispõe a tal gesto. E nem há, ao menos, o vago, sur­do, informulado desejo do poder. A presente “revolução cul­tural” corre o risco de ser um movimento idiota. Dirá alguém que as greves assumem uma dimensão de catástrofe. Mas insis­to: — pode haver a catástrofe idiota.
Sem querer, deixei escapar a palavra exata: — idiota. Há quinze ou vinte dias atrás, escrevi sobre o grande tema de nos­sa época. Não sei se vocês se lembram. Falei da ascensão do idio­ta. No passado, eram os “melhores” que faziam os usos, os cos­tumes, os valores, as idéias, os sentimentos etc. etc. Perguntará alguém: — “E que fazia o idiota?”. Resposta: — fazia filhos.
Mas vejam: — o idiota como tal se comportava. Na rua, pas­sava rente às paredes, gaguejante de humildade. Sabia-se idiota e estava ciente da própria inépcia. Só os “melhores” sentiam, pensavam, e só eles tinham as grandes esposas, as grandes aman­tes, as grandes residências. E, quando um deles morria, logo os idiotas tratavam de erguer um monumento ao gênio.
E, de repente, tudo mudou. Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os “melhores” se juntavam em pequenas minorias acuadas, batidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cien­tista, é romancista, é prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina.
No presente mundo ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o su­jeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou herói precisa imitar o idiota. O pró­prio líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos prefe­rem a liderança de outro cretino.
Escrevi tudo isso há uns quinze dias. Ou por outra: — há um mês, mês e meio. E, súbito, as greves da França parecem dar razão aos meus escritos. Eu queria, aqui, insinuar a hipótese de que a “revolução cultural” seja obra de idiotas. São milhões de sujeitos implicados no movimento. Mas não há um único e es­casso líder; não se ouve um nome. Aí está um dado patético. Não há nada mais impessoal do que o idiota e nada mais idiota do que a unanimidade. E os milhões exprimem a “onipotência nu­mérica” de que falei mais acima.
De Gaulle tem, nisso tudo, a solidão do herói. Sua lideran­ça foi um equívoco que teria de ser desfeito. É o herói puro e, ainda mais, com esporas e penacho. Diria também que não há francês mais radical. Foi francês no momento em que ninguém era francês. Mas tem o defeito realmente indesculpável de não ser idiota. Terá que cair, mais cedo ou mais tarde.
Mas devo fazer uma ressalva. E, de fato, o idiota francês não será nunca trivial. Tem, a seu favor, a língua. A lavadeira pari­siense é uma estilista; fala como uma heroína de Racine. E o chofer de táxi descompõe os turistas com o rigor, a melodia, a plastici­dade da prosa francesa. Em tal idioma, a pior vulgaridade está a um milímetro do sublime. Nos telegramas, não se cita um grande nome da França. Minto. Vi uma fotografia de Sartre ao lado de grevistas. Estava, ali, fingindo-se de idiota para sobreviver.

[24/5/1968]

Um comentário:

Cris disse...

Jana, te indiquei ao MEME, vai lá na minha página.

besos