sexta-feira, 17 de julho de 2009

AMIGO DE INFÂNCIA

Quando soube que o Antunes estava de táxi na porta, des­ceu para o avisar:
— Mas olha: eu estou assim, de pijama, e ainda vou tomar banho.
Antunes, fumando de piteira, entra, senta-se:
— Não faz mal. Eu espero. Mas chispa.
— Agüenta a mão.
O outro ficou na sala, lendo jornal. Debaixo do chuveiro, esfregando-se briosamente, Chagas perguntava a si mesmo: “Que será?”. Tomou o banho e vestiu-se, num tempo recorde. Antes de descer, já pronto, num terno branco, comentou para a mulher, baixo: “Estou achando meio esquisito esse negócio do Antunes aparecer aqui cedo. É alguma complicação!”. Julinha fez um ar de nojo:
— Sabe que eu acho o Antunes tão chato!
— Que o quê! Ótimo sujeito! Meu amigo até debaixo d’água!
Mas Julinha, peremptória como são as mulheres nas suas antipatias, ainda resmungou: “Um falso!”. Cinco minutos de­pois, Chagas instalava-se no táxi do Antunes, lado a lado com o seu maior amigo. Curiosíssimo, indaga:
— Qual é o drama?

O DRAMA

Colocando outro cigarro na piteira, Antunes responde com uma pergunta:
— Confias na tua mulher?
— Como?
— Pergunto se confias na tua mulher.
Pálido, encarava Antunes. Pausa. Interpelou o amigo:
— Mas que palpite é esse? Por que essa pergunta?
Antunes não respondeu imediatamente. Com o dedo mindinho, batia na cinza do cigarro. Sereno e metódico, começou:
— Bem. O negócio é o seguinte. Tu sabes que és meu do peito, não sabes?
— Toca o bonde.
Continuou:
— E eu sou um sujeito nessas condições: se há uma coisa que eu levo a sério, na vida, é a amizade. Pra mim, o amigo está acima de tudo. Acima de dinheiro, de mulher e outros bichos. E eu soube de um negócio e...
Trincando os dentes, Chagas exigiu:
— Desembucha.
E Antunes, implacável:
— Chagas, tudo me faz crer que tua mulher, que Julinha, te trai.
Durante uns dois, três minutos, houve um silêncio entre os dois. Chagas repetia mentalmente: “Julinha me trai... Julinha me trai...”. Súbito, vira-se para o amigo. Está branco:
— Quero provas.
— Provas, como?
Repetiu, na sua cólera contida:
— Provas. Você acusa minha mulher. Muito bem. Deve ter provas. Onde estão?
O outro parecia desconcertado:
— Mas, Chagas! É muito difícil provar essas coisas. Só se eu fosse olhar pelo buraco da fechadura.
Chagas insistia, numa calma apavorante:
— Se você provar, muito bem. Mas se não provar, eu juro por tudo, por essa luz que me alumia, você está desgraçado comigo.
Quando saltaram, no mesmo lugar, porque trabalhavam no mesmo edifício, Antunes suspirou:
— Escuta, Chagas. Você faça o que quiser. Cumpri meu de­ver e pronto.

OS INIMIGOS

Era o fim de uma amizade que durava, ao longo dos anos, desde a infância. Chagas entrou no emprego doente. Pensava: “Devo estar com febre”. Sentado na cadeira giratória, procura­va reconstituir, de cabeça, toda a sua vida conjugai. Numa me­ditação ardente e obstinada, tentava lembrar-se de um gesto, de uma palavra, de uma frase de Julinha que pudesse sugerir a existência de um amante. Sua memória, porém, não a acusava de coisa alguma. Quatro anos depois do casamento, a pequena era a mesma mulher, sempre igual a si mesma, duma ternura que não mudava. Na hora do lanche, Chagas vira-se para um companheiro. Faz a confidência gratuita:
— Pela primeira vez, eu conheço o ódio. Pela primeira vez eu sei o que é odiar.
E, de fato, odiava Antunes. Por outro lado, descobria que há no ódio mais obstinação, mais exclusividade, mais fidelida­de do que no amor. Só se pode odiar uma pessoa. E Chagas pen­sava em Antunes segundo a segundo, minuto a minuto. Nessa tarde, saiu mais cedo e desceu ao andar onde o outro trabalha­va. Sentou-se a seu lado. Perguntou:
— Aquilo que tu me contaste. Tens certeza ou é descon­fiança?
— Certeza.
— Absoluta?
— Absolutíssima.
Devia bastar. Mas Chagas teimou:
— Certeza como? Certeza por quê? Tu mesmo não disseste que certeza, nesses casos, só mesmo olhando pelo buraco da fechadura?
Antunes pôs-lhe a mão no ombro:
— Eu não olhei pelo buraco da fechadura, claro. Mas...
— Fala!
Baixou a voz:
— Mas vi, com meus próprios olhos, eu vi a tua mulher en­trando num lugar assim, assim, no Leblon.
Chagas ergueu-se. Andou de um lado para outro. Sentou-se outra vez. E quis saber: “Explica uma coisa. Por que me con­taste isso? Por quê?”. O outro foi lacônico:
— Achei que era meu dever de amigo.
Desesperado, protestou:
— Dever como? Dever por quê, carambolas? Ora, tu não sabes que minha mulher é tudo para mim, absolutamente tudo?
Antunes inclinou-se. Sem desfitá-lo, explicou:
— Eu não quis que bancasses o palhaço. Por isso contei.

A PROVA

E, então, a vida de Chagas mudou por completo. Não fazia a barba, não tomava banho, não mudava a camisa. Perdera to­do o capricho; ou, por outra, só caprichava no desleixo. Tinha uma espécie de orgulho, de vaidade, de parecer um maltrapi­lho, um miserável. Julinha, impressionada, pedia: “Faz a barba ao menos, criatura!”. Ele ria, amargo; respirava fundo:
— Há coisas mais importantes do que a barba!
Todos os dias, conversava com Antunes, embora o odias­se cada vez mais. Uma tarde explodiu:
— Ah, se isso fosse uma calúnia, uma mentira tua, sórdi­da!... — Soluçava: “Eu te agradeceria de joelhos, se tivesses men­tido, se tivesses caluniado a minha mulher!”.
O outro encarniçava-se:
— É verdade! Juro que é verdade! Quero que Deus me ce­gue se minto! Tens que tirar esta mulher de tua vida! Não admi­to que um amigo meu banque o palhaço!
Rápido, Chagas levantou-se. Segurou o outro pelos dois bra­ços e o sacudia: “Eu só acredito vendo! Tua palavra não bas­ta!”. Sem medo, com uma determinação de amigo fanático, An­tunes replicou:
— Eu incumbi uma pessoa de acompanhar os passos de tua mulher. Tu verás.

VINGANÇA

Uma semana depois, Antunes telefona para Chagas: “Olha, eu soube, pela tal pessoa, que tua mulher, hoje, às quatro da tarde, vai ao Leblon”. Às três horas, os dois partem de táxi para o local. Durante a viagem, Chagas ia dizendo, numa obsessão: “Por que não me deixaste iludido? Ela me enganaria sempre e eu não saberia nunca!”. Ria, entre lágrimas: “Nenhum marido precisa saber! Saber pra quê?”. E confessava: “Eu nunca farei nada contra a minha mulher, nunca! É absolutamente sagrada para mim. Por que não me deixaste ser traído em paz?”. O ou­tro respondeu, lacônico:
— Sou teu amigo. — E repetia: “Ponho o amigo acima de tudo”.
Às quatro horas, Chagas estava no táxi espiando a porta cen­tral do edifício. Viu quando a mulher descia, de outro táxi, acom­panhada. A seu lado, Antunes exultou:
— E agora? Viste ou não viste com teus próprios olhos? Não foi batata o que eu te disse? Foi ou não foi?
Então, arquejante, a boca torcida, Chagas virou-se para o delator. Disse:
— Eu te perdoaria se tivesses mentido, se tivesses calunia­do. Mas não mentiste, nem caluniaste. Disseste a verdade. E eu não te perdôo a verdade.
Deu-lhe dois tiros, à queima-roupa. E ainda puxou o gati­lho, uma terceira vez, para acabar de matar o homem que não mentira.

Um comentário:

Rafael Belo disse...

A verdade mata. È ululante. bjs