sábado, 25 de julho de 2009

O DESGRAÇADO

Numa roda de amigos, queixou-se amargamente. Rosnava para um e outro:
— Vivo uma tragédia! — E repetia, com o olho rútilo: — Uma tragédia!
Então, um dos presentes, o Pimentel, bate-lhe nas costas e passa-lhe um pito jucundo:
— Você fala de barriga cheia! Tragédia de araque! Um su­jeito como tu, cheio de mulheres! Escuta, Peixoto. Você não sabe o que fazer de tanta mulher!
Peixoto abre os braços:
— Pimentel, olha. Escuta, Pimentel. Aí é que está. A mi­nha tragédia é justamente essa. Entende? Essa! Tenho mulher demais! Deixa eu falar! Eu nasci com um temperamento que Deus me livre. Não posso ver uma. Enfrento buchos horrorosos!
Em redor, houve um espanto divertido:
— Chuta tuas mulheres! Passa adiante!
Assim espicaçado, ele começou a dar chutes no ar. Estava ridículo e terrível:
— Chuto, sim. Estou disposto. Ouve aqui. Estou disposto a fazer uma liquidação das minhas mulheres! — E trincava os dentes: — Uma liquidação de mulheres na avenida Passos!

DOENÇA

Pouco depois, abandonava o grupo. O Pimentel, que tinha um encontro, o acompanhou. E o Peixoto, particularmente de­primido, fez-lhe confidencias ainda mais dramáticas:
— Imagina tu. Vê se pode. Hoje, em minha casa. No meu próprio lar, Pimentel!
O amigo pensou na empregada. Mas Peixoto foi taxativo:
— Antes fosse a empregada. Antes fosse. Cunhada, Pimen­tel! Percebeste? Cunhada!
— Qual delas?
Param numa esquina, à espera do sinal. Peixoto esbraveja:
— A viúva! Perdeu o marido há dois meses. Ou nem isso. E, hoje, eu quase pulo no pescoço da infeliz. Se minha mulher não aparece. Por acaso, foi uma casualidade. Se não aparece, eu atacava! E já imaginaste o bode?
Pimentel pigarreia: — “Bem, mas. A tua cunhada vale. De mais a mais, o luto desperta, inspira”. Peixoto respira fundo:
— Qual nada! Isso é doença! Vou ao médico! Doença, no duro! Até logo, lembranças, até logo!

O MÉDICO

No dia seguinte, consultou os colegas do escritório:
— Qual é o médico que trata de sujeito que só pensa em mulher?
O subcontador, o Carvalhinho, faz espanto: — “Isso é doen­ça, é?”. Peixoto rosna:
— Não faz piada! No meu caso, é doença!
Ante a alegre curiosidade dos amigos, explicou que era por­tador de um desejo indiscriminado e universal. Não fazia dis­criminação de cor, de idade, de estado civil, de nada. Repetia para os colegas: — “Isso não é normal, não pode ser normal!”. Deixa passar um momento e torna: — “Deve haver um remé­dio. É impossível que não haja um remédio!”. O Carvalhinho deu a idéia:
— Vai ao Ribas. Psiquiatra de mão cheia.
Quis saber: — “É caro?”. E o Carvalhinho:
— Puxado, mas vale.
Depois do almoço, lá foi o Peixoto para o Ribas. Deixou com a enfermeira mil pratas e pensava:
— Esses médicos são uns gângsteres!
Finalmente, pôde entrar. E viu-se diante de um sujeito de avental, esguio e lívido. Na sua cadeira giratória, o dr. Ribas faz a primeira pergunta e o Peixoto começa, ansiosamente:
— Doutor, o meu problema é o seguinte: — eu acho que tenho um excesso de energia.
Batendo com o lápis na mesa, o médico quis saber: — “Co­mo excesso de energia?”. Com uma certa vergonha, explica:
— Não posso ver mulher, doutor. Qualquer uma, já sabe. Mesmo as feias, as horrorosas, doutor. Eu não faço seleção. Não seleciono.
O médico levanta-se. Andando de um lado para outro, fala:
— Em amor, a seleção é um equívoco ou, pior, uma defi­ciência. Só os insuficientes é que escolhem muito, escolhem de­mais. Meu amigo, a natureza não manda o senhor preferir a Ava Gardner, a Lollobrigida. Para a natureza, qualquer mulher é mu­lher. E os buchos também são filhos de Deus, que é que há?
Confuso, balbuciou:
— Mas, doutor, o meu problema...
O médico atalha: — “Meu amigo, não chame isso de pro­blema. Isso nunca foi problema, nem aqui, nem na China”. Pei­xoto gagueja: — “Quer dizer que...”. E o dr. Ribas:
— Meu amigo, se todos os maridos fossem como o senhor, a loucura feminina seria mínima. O que põe a mulher no hospí­cio, quase sempre, é a falta de amor. Batata!
Peixoto já não sabia mais o que dizer, o que pensar. Inte­riormente, chorava amargamente os mil cruzeiros da consulta. Perguntou, finalmente:
— Não tenho, então, nenhuma doença, doutor?
Dr. Ribas pôs-lhe a mão no ombro:
— Doença? Meu amigo, sossega! Você tem uma mina. Es­cuta, um momento. Você tirou a sorte grande. Vou lhe dizer mais: — atrás dessa doença ando eu. Eu queria que isso fosse contagioso. Palavra de honra!
Levou-o até a porta. Baixou a voz, grave:
— Está de parabéns!

O INFELIZ

Ao sair do consultório, Peixoto não sabia se estava radian­te ou desesperado. Mas, no elevador, via uma gorducha, vesti­do colante, decote espetacular e toda uma cintilação de jóias. Peixoto dardeja-lhe o primeiro olhar e já começou a respirar forte. Embaixo, a baiaca sai na frente e o Peixoto, alucinado, atrás. Mais adiante, o lábio trêmulo, uma luminosidade no olhar, pergunta, por cima do ombro da desconhecida:
— Posso acompanhá-la?
A mulher vira-se. Olha-o de cima a baixo:
— Quer que eu chame o guarda?
E ele, ofegante:
— Perdão. A senhora me interpretou mal.
Não se controlava mais. Em sentido contrário, vinha uma fulana qualquer. Bonita? Feia? Peixoto não saberia dizê-lo, nem era problema. Deixa uma por outra. Com uns olhos imensos e fixos de Svengali, balbucia:
— Minha senhora, olha, escuta. Sinto por si uma forte sim­patia.
A fulana apressa o passo. O rapaz via outras. Fora de si, dirige-se a um senhor. Pede, chorando:
— O senhor me segura? Quer me fazer o favor de me se­gurar? Ou me segura ou eu agrido todas as mulheres, todas!
O outro não compreendia. Ele soluçava:
— Eu quero ser amarrado! Preciso ser amarrado!
Uns dez tiveram que agarrá-lo.

Um comentário:

Rafael Belo disse...

"Nelson"! Sempre me maravilho ao relê-lo . Fantástico. beijos