sexta-feira, 5 de setembro de 2008

ASSIM É UM LÍDER

O líder é um canalha. Dirá alguém que estou generalizan­do. Exato: estou generalizando. Vejam, por exemplo, Stalin. Nin­guém mais líder. Lenin pode ser esquecido, Stalin, não. Um dia, os camponeses insinuaram uma resistência. Stalin não teve nem dúvida, nem pena. Matou, de fome punitiva; 12 milhões de cam­poneses. Nem mais, nem menos: — 12 milhões. Era um mara­vilhoso canalha e, portanto, o líder puro.
E não foi traído. Aí está o mistério que, realmente, não é mistério. É uma verdade historicamente demonstrada: — o ca­nalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: — ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: — ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma ‘ esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.
Mas dizia eu que Stalin não foi traído, nem Hitler. O Fuehrer, para morrer, teve de se matar. (Nem me falem do atentado dos generais grã-finos. Há uma só verdade: — nem o soldado ale­mão, nem o operário, nem o jovem, nem o velho, traíram Hi­tler.) E, quanto a Stalin, ninguém mais amado. Só Hitler foi tão amado. Aqui mesmo, no Brasil. Bem me lembro, durante a guer­ra, dos nossos stalinistas. Na queda de Paris, um deles veio-me dizer, de olho rútilo e lábio trêmulo: — “Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra”.
Sim, o que se sentia aqui por Stalin era uma dessas admira­ções hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade ex­plodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer “travesti” do João Caetano ou do Teatro Repú­blica. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um amor quase físico, uma espécie de pederastia idealiza­da, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de “o Velho”. E essa paixão era de um sublime ignóbil.
Já o czar foi o antilíder. Há um quadro russo da matança da família imperial. (A pintura de lá, tanto a czarista, como a so­viética, é puro Oswaldo Teixeira.) Eis o que nos mostra a tela: empilhados, numa bacanal de defuntos, o czar, a czarina, as princesinhas etc. etc. Uns por cima dos outros e cravejados de ba­las. Os soldados receberam a ordem e estouraram a cara dos ve­lhos, das mocinhas, dos meninos. Mas não vamos assumir, aqui, nenhuma postura sentimental. Eis o que importa dizer.
Na véspera de morrer, o nosso Nicolau entretinha-se na re­dação do seu diário. Fazia diário como qualquer heroína da Co­leção das moças. Reparem no antilíder, no anti-rei, no antitudo. No dia seguinte estariam à mostra os intestinos dele mes­mo, as tripas da mulher, dos filhos, dos sobrinhos, dos netos. Mas ele não teve nenhum sentimento da morte. No jardim ha­via um “lago azul” como o da nossa canção naval. E, lá, dois ou três cisnes deslizavam mansamente. Um mundo já morria e outro ia nascer. E o czar estava fascinado pelos cisnes, e a últi­ma página do diário era a eles dedicada. Um homem assim teria de ser exterminado a bala ou a pauladas, como uma ratazana.
Alguém lembrará a figura e o nome de Kennedy. Era um líder que preservava um mínimo de humanidade. Mas não era lí­der. Lembro-me da babá portuguesa da minha garotinha. Ao ver o retrato de Kennedy, gemeu com sotaque: — “Bonito como uma virgem”. Era um líder de luxo, isto é, o antilíder. Ao en­trar na política, o pai, outro aristocrata, deu-lhe um cheque de um milhão de dólares. E mais: — Kennedy casou-se com Jacqueline. E a mulher bonita é própria do falso líder. Nem Stalin, nem Hitler, fariam essa dupla concessão ao sentimento e ao se­xo. Reexaminem toda a vida de Kennedy: — não foi, em mo­mento nenhum de sua história e de sua lenda, um canalha. E não soube fazer pulhas para juntá-los em torno de sua liderança.
Pensem no pacto germano-soviético. Todos os que o acei­taram ou que ainda hoje o justificam eram e são perfeitos, irretocáveis canalhas. De um só lance, Stalin e Hitler degradaram toda uma época. Eis o que desejo ressaltar: — faltava a Kennedy essa capacidade de aviltar um povo. Ao passo que Stalin fez seu povo à imagem e semelhança da própria abjeção. Mas foi na mor­te que Kennedy demonstrou a ineficácia e falsidade de sua lide­rança.
O líder não morre antes, nem depois. O derrame escolheu a hora certa para matar Stalin. Hitler meteu uma bala na cabeça no momento justo em que precisava estourar os miolos. Wa­terloo aconteceu quando se esgotou a vitalidade histórica da era napoleônica. Se Lenin vivesse mais quinze dias seria outro Trotski. E Kennedy caiu antes do tempo, morreu quando não tinha que morrer. Imaginem um Cristo morto de coqueluche aos três anos. Não seria Cristo, não seria nada. Kennedy morreu ao la­do da mulher bonita. E, de repente, veio a bala e arrancou-lhe o queixo, forte, crispado, vital. Restava tudo por fazer; o hori­zonte da reeleição abria-se diante dele. Essa morte antes do tem­po mostrou que Kennedy não era Kennedy. O amor que lhe consagramos é um equívoco.
Falo, falo e não sei bem por que estou dizendo tudo isso. Agora me lembro. Eu disse algo parecido, ontem, num sarau de grã-finos. Não achem graça. Aprende-se muito no grã-finismo, e repito: — certos grã-finos têm um sutil faro histórico, diria melhor, profético. Sentem, por vezes, antes dos outros, o que eu chamaria “odor da História”. E um desses estava-me dizendo, num canto, com uma convicção forte: — “Vai haver o dia­bo neste país”.
Disse e fez um suspense. Instiguei-o: — “O diabo, como?”. E ele, misterioso: — “Você não sente que vem por aí não sei o quê?”. Esse “não sei o quê” era pouco para a minha fome. O grã-fino punha mais gelo no copo. Insinuou: — “Há muita insatisfação”. Ainda era pouco. E eu queria saber, concretamente, o que vinha por aí. Perguntei: — “Sangue?”. E o outro, cara a cara comigo e um ar de quem promete uma hemorragia na­cional inédita: — “Sangue”.
Todavia, o suspense continuava. “Sangue”, dissera ele. Mas quem ia derramar o sangue, e que sangue? Ainda olhei para os lados, como a procurar, entre os convidados, um possível Drácula. Quando, porém, o grã-fino falou em “esquerda”, a minha perplexidade não teve mais tamanho. Recuei dois passos, avan­cei outros tantos, e perguntei: — “Você acredita na nossa es­querda? Nessa que está aí?”.
Ele acreditava. Então perdi a paciência e falei sem parar. Quem ia mudar qualquer coisa neste país? A esquerda tem um canalha para exercer uma liderança concreta e proveitosa? Se­nhoras entraram no debate. Fez-se, ali, uma alegre pesquisa de pulhas. Mas os canalhas lembrados eram, ao mesmo tempo, im­becis. E o que a História pedia era um crápula com seu toque de gênio. Em suma: — não ocorria aos presentes um nome vá­lido. A última palavra foi minha. Disse eu mais ou menos o se­guinte: — enquanto a esquerda que aí está não for substituída até seu último idiota, não vai acontecer nada, rigorosamente nada.

[9/1/1968]

Nenhum comentário: