sábado, 25 de abril de 2009

Capítulo 19 - A Menina sem Estrela

Em recente capítulo, dizia eu o que me parece ser uma ver­dade exata e inapelável: — Samuel Wainer pertence a um povo que não morre; e, se morre, estejamos certos de sua ressurrei­ção urgente e triunfal. O caso do próprio Samuel está aí, diante de nós, como uma lição de vida. Veio a Revolução de 64 e o cassou. Ei-lo sem direitos, sem nada; e, por fim, sai do Brasil como um enxotado.
Outro qualquer estaria liquidado. Vejam Juscelino. Ah, o Juscelino do exílio é outro. Não tem nada daquele cafajeste dio­nisíaco que fascinava até os inimigos. Longe do Brasil, ninguém mais plangente, ninguém mais pungente. É um Juscelino des­conhecido e terrível, esse que arrasta, pelos hotéis da Europa, a sua lúgubre e inconsolável nostalgia.
E das duas uma: — ou o deixam voltar ou ele não sobrevi­ve. Para Samuel, o exílio nada tem de destrutivo. Está em Paris. Mas tanto faz Paris como Cairo, ou Cingapura, ou Tóquio, ou Constantinopla. Floresce em qualquer vaso. E se o colocarem num deserto, há de inaugurar uma bica, uma pia, em plena e brutal aridez. Entra nos cafés de Paris, tropeçando nas mesas e cadeiras. Em seguida, é visto em Atenas, filmando. E não pá­ra. Alguém que o cumprimentou em Londres fala de suas so­brancelhas.
As sobrancelhas de Samuel! Segundo meu informante, es­tão mais agressivas que as cerdas bravas do javali. E não só isso: — não é a mesma cara que daqui saiu, uma cara não isenta de doçura. Lá fora, Samuel se tornou mais feio. Mas há nesse feio não sei que sortilégio ou luminosidade. Eis o que me pergunto: — de onde vem a magia de Samuel?
Ele não odeia ninguém, nunca. Lembro-me daquele sujei­to de anedota que achava o ódio uma perda de tempo e de di­nheiro. Samuel é mais ou menos assim, ou melhor dizendo: — é exatamente assim. Não há, nele, o desgaste do ressentimento. Quando era mais cruel a campanha contra a Última Hora, Sa­muel não teve jamais um movimento de ira.
Esquecia-me de uma observação, que me parece vital: — naquela ocasião, a ira contra ele não era unânime. Há mulheres que estão sempre dispostas a enxugar, na fronte do humilhado, o suor do martírio. Fartei-me de atender a telefonemas desvairados. Uma das fanáticas soluçava: — “É um santo! É um santo!”. Enquanto ele vagou, perdido e degradado, teve a devoção de uma meia dúzia. Mas quando o suicídio de Getúlio o reabilitou e promoveu, elas o execraram.
Mas eu falava da impotência de Samuel para o ódio. Antes da Revolução, encontrou-se ele com o meu amigo Otto Lara Re­sende. Foi, de parte a parte, uma efusão tremenda. Sentaram-se num bar e começaram a conversar. O Samuel a fazer charme para o Otto, e o Otto a fazer charme para o Samuel. Durante quatro horas, só falaram de um homem: — o abominabilíssimo Carlos. E o Samuel ainda sangrava de ultrajes não cicatrizados.
Otto imaginou que o outro espumasse de ódio ou subisse pelas paredes como uma lagartixa profissional. Pelo contrário: — uma ternura evocativa inundou Samuel. Perguntava, nostál­gico da convivência perdida: — “Como vai ele? Ainda tem aquele charme?... Continua bonito?”. O Otto ia respondendo. O hedion­do inimigo de Samuel já não era inimigo, nem hediondo. E, ali numa conversa vadia, fazendo uma trama de lembranças, os dois acabaram montando um mito adorável. Samuel era só amor.
Talvez seja este o último capítulo que escrevo sobre a Últi­ma Hora. E eu queria contar, ainda, um episódio, que me espanta até hoje. Bem. Tudo começou quando me operei da vesícula. Fez a intervenção o dr. Hugo Cota dos Santos, um virtuose do bisturi. Entre parênteses, o Hugo é doce como um irmão. E foi perfeito na prudência, lucidez, sabedoria e amor. Assistiu à operação minha irmã médica, Stella.
Ora, vesícula não assombra ninguém. Pouco antes de mim, um vizinho meu fizera a mesma operação. Três dias depois, es­tava na calçada, radiante; abria o paletó do pijama e mostrava a barriga cortada. Mas como ia dizendo: — fui operado, voltei para o quarto e, com pouco mais, começava a sofrer. Mas o meu sofrimento nada tinha a ver com a carne ferida. Era uma angús­tia como eu não conhecia. Suor, queda de pressão, o diabo. Ou­ço o meu próprio gemido: — “Ai, meu Deus, ai, meu Deus!”.
Pânico no quarto. O dr. Hugo veio correndo. Põe o olhar em mim e imagina: — “Quadro de enfarte”. Eu via as pessoas entrando: — meus irmãos, Mário, Augusto, Milton, Paulo. E eu não sabia que um espírita avisara: — “Nelson vai morrer da ope­ração”. O Hugo está debruçado sobre mim: — “O que é que você quer que eu faça? Eu faço o que você quiser”. Respondo: — “Quero água, água!”. Alguém vai encher um copo. A minha voz continua: — “Água”. Apanho o copo com as duas mãos; bebo, em ânsias pavorosas. A água volta, como uma baba. Não consigo beber, a garganta está fechada.
De repente, sobe, do fundo da agonia, o apelo: — “Quero fazer pipi”. Mais uns dez minutos e começo a melhorar. Não era enfarte. Eu não queria dormir, com medo de passar de um sono a outro sono mais profundo. Uma voz me dizia: “Precisa dormir, dorme, dorme”. Finalmente adormeci como quem mor­re. Dois dias depois, vou para casa. E passei três meses com qua­renta graus de febre.
Na primeira noite de minha volta, acordei com a Assistên­cia na porta. Tivera um acesso de tosse tão espantoso que re­bentara os pontos. O meu sangue vivo ensopava o lençol. As transfusões iam começar. Mas eis o que me pergunto até hoje: — por que a febre? Ela se irradiava das profundezas e parecia iluminar os cabelos. Nem sei quantos médicos me examinaram. Genésio Pitanga viu o problema pulmonar. Dauro Mendes, o estado geral; Orlando Vaz, o bom Orlando Vaz; e o Hugo Cota não saía do meu quarto. Nenhum médico, nenhum achou uma causa física para a febre que estava me matando.
Amanhã, vou contar como reagiu Samuel no caso de mi­nha doença. Por hoje, desejo apenas dizer que ninguém me vi­sitou. Estava morrendo e ninguém me visitava. Eu pensava: — “Ninguém gosta de mim. Não tenho amigos”. E uma obsessão não me largava: — “Eles me acham um canalha”. Até que, de repente, apareceu alguém para me ver: — Pinheiro Júnior, da Última Hora. Chegou com um fotógrafo e vinha me entrevis­tar. Eu estava com 39,9.
E me sentia tão perdido que, naquele momento, teria bei­jado a mão de qualquer visita. Entrevista? Pois não, pois não. E queria que o Pinheiro ficasse muito tempo, ao meu lado, co­migo, meu Deus. Se eu tivesse de morrer, queria que muitos, que todos viessem. Arquejei: — “Como é, Pinheiro? Tudo azul?”. E sorria para o companheiro. Ele faz perguntas, que vou respondendo. Pinheiro curva-se para mim: — “Nelson, escuta. Se você tivesse de morrer, quais seriam as suas últimas pala­vras?”. Suspense. Começo: — “Minhas últimas palavras?”. E Pinheiro: — “Vamos fazer de conta. Suas últimas palavras”. Digo: — “Põe aí. Mas publica mesmo, ouviu?”. Ele jurou que publicava. Então digo: — “Que boa besta é o Carlos Marx!”.

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