terça-feira, 28 de julho de 2009

CANSADA DE SER FRIA

Quando o irmão apareceu na porta do escritório, perguntou:
— Qual é o drama?
E Gervásio, arriando na cadeira:
— Preciso muito falar contigo.
Apanha um cigarro.
— Fala!
Então, já com os olhos cheios de lágrimas, o outro pede: — “Primeiro, fecha a porta”. Felipe sente que o irmão está ar­rasado. Surpreso, levanta-se e passa a chave na porta. Volta-se e pergunta:
— Mas o que é que há?
Gervásio tem um soluço imenso:
— Sou traído! Adélia me trai! Tem um amante!
Estupefato, Felipe balbucia:
— Não é possível! Não pode ser!
Repete:
— Me trai, sim! — E batia no peito: — Sou traído!
— Não acredito, só vendo!

ADÉLIA

A princípio, Felipe pensou num caso de ciúmes doentios. Mas o outro o desiludiu. Mandara seguir a mulher por um dete­tive particular. E agora sabia de tudo — nome, endereço, dias de encontros, horários. Na véspera, metera-se com o detetive num táxi e lá foram os dois, para a esquina do apartamento do pecado. Viram quando Adélia saltara de outro táxi e entrara no edifício. Gervásio podia ter uma atitude qualquer, de marido, de homem. Mas desde a véspera que se limitava a chorar. Ge­mia para o irmão: — “Sou um pulha, um tarado! Não fiz, nem vou fazer nada”. E súbito, no seu desespero, crispa a mão no braço do irmão:
— Agora compreendo tua situação. Imagino o que não sofre!
Felipe volta-se, espantado:
— Minha situação? — Sem entender, continua: — Mas que situação?
Gervásio passa as costas da mão nos olhos. Arqueja: — “Nós também somos irmãos em desgraça. Eu sou traído por um la­do: tu és traído por outro!”.
Há uma pausa. Felipe instiga:
— Sou traído e...
— Pois é: — és traído e sabes, como eu.
Por um momento, Felipe não sabe o que pensar ou o que dizer. E, súbito, sem que o Gervásio possa prever-lhe o gesto, agarra-o pela gola do paletó e o sacode:
— Você vai me contar tudo, tudinho, seu cachorro! Quem lhe disse que eu sou traído e que sabia? Fala ou te arrebento.
Desconcertado, Gervásio debate-se:
— Mas que é isso? Não faça isso! Calma!
Felipe trincou os dentes:
— Quero a verdade, toda a verdade!

REVELAÇÃO

Sacudido por Felipe, que o ameaçava de quebrar a cara e até de lhe dar um tiro na boca, Gervásio confundiu-se todo:
— Eu pensei que você soubesse. Todos pensam que você sabe e perdoa!
Felipe interrompeu: — “Não quero comentários. Quero in­formações. Anda!”. Então, esquecido da própria tragédia, lá foi o Gervásio falando. O outro corta outra vez:
— Quero o nome do amante!
O irmão vacila, mas acaba tomando coragem:
— São vários!
Recua, desgovernado: — “Vários?”. E insiste: — “Mais de um?”. Gervásio confirma. Então, diz, com um meio riso he­diondo:
— Tens mais sorte do que eu. A tua só tem um! Mas continua!
Gervásio contou-lhe o resto. Parentes, amigos, simples co­nhecidos sabiam de tudo. E ela não discriminava, não escolhia, como se o seu destino fosse trair, apenas trair. Felipe apertava a cabeça entre as mãos. Faz uma pergunta, que é um lamento: — “Por quê, meu Deus, por quê?”. Vira-se, com o rosto de­vastado:
— Quer dizer que todo o Rio de Janeiro sabia, menos eu?
Gervásio levanta-se. Felipe o acompanha até a porta. Bate-lhe nas costas, com um humor ignóbil:
— Parabéns, porque a tua só tem um e a minha vários!

O CHOQUE

Durante uma hora, uma hora e pouco, ele ficou só no gabi­nete, entregue a uma meditação ardente e vazia. Quando apa­receu uma funcionária com uns papéis, explodiu: — “Vai-te para o diabo que te carregue!”. A moça fugiu apavorada. Por fim, ele levantou-se, pôs o paletó e apanhou o revólver na gaveta. Meia hora depois, chega em casa. Entra e, impassível, faz um sinal para a mulher:
— Vamos bater um papinho lá dentro.
Tranca-se à chave com a esposa. Ela pergunta: — “Alguma novidade?”. Rápido ele puxa o revólver. A esposa recua: — “Que é isso?”. Foi sumário:
— Soube isso assim, assim. É verdade? Responda.
Ergue o rosto:
— É verdade.
Há uma pausa. Ele, quase chorando, pergunta: — “Já que confessa, quero que me responda: — você merece a morte?”. Ela teve uma breve vacilação. Acabou respondendo, com uma firmeza não isenta de doçura:
— Mereço. Eu mereço a morte.
E ele:
— Escuta: — eu devia te matar como a uma cachorra. Mas há, nisso tudo, um mistério. Eu te perdoarei a vida se me disseres a verdade. Por que me traíste? Fala!
— Por quê?
O marido continua:
— Eu sempre te conheci fria, de gelo, de pedra, de morte. Já no namoro, tinhas horror de um simples beijo. No casamento, a mesma coisa. Sempre me disseste que odeias a parte física do amor. Responde: — não me disseste sempre?
Felipe está ofegante. Prossegue: — “A mulher fria é a úni­ca que não tem o direito de trair. Por que me traíste, por quê?”.
Durante um momento, os dois se olharam apenas. Ela se tornara para o marido a última das desconhecidas.
O marido insiste: — “Se me explicares, eu não te farei na­da, juro!”.
Então, sem desfitá-lo, a mulher fala:
— Eu te traí na esperança do amor de que todos falam. Mi­nhas amigas contavam maravilhas dos seus amores. Eu quis en­contrar o meu.
— E daí? Encontraste?
Ela ficou calada. Finalmente respondeu:
— Nunca.

O DESFECHO

Sem uma palavra, ele abre a gaveta e guarda lá o revólver. Levanta-se e sai. Imóvel e silenciosa, vê o marido abrir a porta, atravessar a sala e sair. Então, sozinha, apanha um lápis e um papel e escreve, uma porção de vezes: — “A mulher que não pode amar também não deve viver”. Horas depois, tira da ga­veta o revólver do marido. Já que ele não a matara, ela se ma­tou — cansada de ser fria.

2 comentários:

Jamylle Bezerra disse...

Nossa!!! Texto muito gostoso de ler!! Adorei!!!!!! Parabéns!!!

Vou te add nos meus favoritos tá?!

www.jamyllebezerra.blogspot.com

Lili Cardoso disse...

Caramba... gostei mtu do que pude ler aqui! Parabéns.
bjOs..