segunda-feira, 27 de julho de 2009

O PRIMEIRO PECADO

Estavam na sorveteria há meia hora, mais ou menos. Súbi­to, Irene pede: — “Vê que horas são”. Mário espia o relógio de pulso: — “Seis horas”. Ela tomou um susto: — “Já?”. Apa­nhou a bolsa, que estava ao lado, em cima da mesa.
— Vamos, porque tenho que chegar antes do meu marido.
Fez espanto:
— Você é casada?
E ela:
— Não sabia?
— Nem desconfiava.
Sorriu:
— Pois sou: — casadíssima.
— Ora veja!
Estava num espanto sincero e profundo. Pagou a despesa, deixou a gorjeta e levantou-se com a garota. Já na calçada, faz a pergunta: — “Cadê a aliança?”.
— Não uso.
Despediram-se ali mesmo, depois de marcar um encontro para o dia seguinte. E, então, ainda impressionadíssimo, ele veio andando a pé, até o bar, onde se encontrava ao cair da tarde com os amigos.

O NAMORO

Era o segundo encontro. Na véspera ele a vira, pela primeira vez, numa fila de ônibus. Enquanto esperavam condução, nasceu o flerte. E o que surpreendeu foi a facilidade. Ela não esboçou nem mesmo uma resistência convencional. Na tarde seguinte, tomavam sorvete juntos na cidade. E só então, acidentalmente, falara no marido. Para Mário, que era um moço ingênuo e tími­do, a mulher casada representava uma experiência nova e inquietante. No bar, chamou o Jordão e contou-lhe o caso. Abria os braços: — “Estou com a minha cara no chão!”. Trincando batatas fritas, o Jordão pisca o olho:
— Cuidado!
— Por quê?
Explicou:
— Mulher casada dramatiza muito, compreendeste? Quer fugir, largar o marido, fazer pacto de morte, o diabo!
Mário acreditava na experiência do cinismo do Jordão.
O outro continuava: — “Em todo o caso, vale a pena, por­que é uma esposa desiludida”. Pausa, bebe um pouco e com­pleta: — “A esposa desiludida é sempre uma grande mulher”.
— Tu és capaz de me fazer um favor de mãe para filho? De me emprestar o teu apartamento?
E como julgasse perceber no rosto do outro um descon­tentamento, atalhou:
— Mas é só uma vez!
— Uma vez só?
— Te juro!
— Bem. Assim empresto.
Mário despediu-se, exuberante:
— És uma mãe.

O ROMANCE

Sob a alegação de que nunca namorara uma mulher casa­da, Jordão o instigou a entrar de sola. Mas o diabo era o seguin­te: aquele caso, na vida de Mário, era uma experiência inédita. Ele perguntou a ela:
— Que tal o teu marido?
Ela fez um resumo sublime:
— Inofensivo.
Então, Mário quis ir mais longe. Perguntou, escolhendo as palavras: — “É a primeira vez que você faz isso?”
— A primeiríssima, nunca traí meu marido, sob minha pa­lavra de honra!
— Acredito. — Pigarreia, continuando: — E outra coisa: — houve alguma coisa entre vocês? Vocês brigaram? Ele a mal­tratou?
Jurou:
— Nunca. Meu marido não faz mal a uma mosca, me trata na palma da mão. Que esperança!
Desconcertado, não sabia o que pensar ou o que dizer: — “Mas, então, para que você faz essas coisas? Não entendo”. Ela passou-lhe um pito: — “Olha, meu bem: — eu não gosto de homem que faz muita pergunta. Eu não estou aqui contigo? En­tão, pronto!”.
Gaguejou, vermelhíssimo: — “Claro, evidente!”. Caía a noi­te e estavam em pé, debaixo de uma árvore, numa esquina. Sú­bito, Irene diz-lhe:
— E já que tu não me beijas... — Ergueu-se na ponta dos pés, apertou o rosto do rapaz entre as mãos e sorveu-lhe a boca num beijo sem fim. Ele sentiu que ela estava mordendo o seu lábio inferior. Quando se desprenderam, Mário, ainda arquejante, teve uma audácia de tímido:
— Tu irias, amanhã, a um lugar assim, assim?
Irene, ofegante, exclamou:
— Como demoraste, puxa! Vou, sim, claro que vou!
Ali mesmo ele apanhou um papelzinho e escreveu o ende­reço: — “Toma: — é aí. Às nove horas da manhã, nove, ou­viu?”.
Estava sujo de batom até a alma.

O PECADO

O horário fora idéia do Jordão. A princípio Mário quisera relutar — “Por que tão cedo?”.
— Mas claro, nenhum marido desconfia da mulher às no­ve da manhã! Os maridos começam a desconfiar das mulheres depois das duas da tarde!
O raciocínio era válido; e, além disso, Jordão tinha a auto­ridade de dono do apartamento. Ao deixar a pequena, Mário procura aflito o amigo. Encontrou-o no bar de sempre e esten­deu a mão: — “A chave, a chave!”.
Recebeu a chave e a embolsou. Mais tranqüilo, narrou o episódio do beijo, exagerando: — “Quase me arrancou os lábios!”. E exibia os beiços feridos. O Jordão, que já bebera o oi­tavo chope, sentenciou:
— Das duas, uma! — Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível!
Mário baixa a voz: — “Sabe que estou nervoso? E se ela tiver má impressão de mim?”. Na hora de sair, perguntou ao amigo: — “Ponho perfume?”. O outro admitiu:
— Perfume discreto é bom. Mas vê lá se vai usar loção de gafieira, vê lá!

A CHAVE

Estava tão emocionado que passou a noite em claro, fuman­do um cigarro atrás do outro. Irene podia ser considerada uma pequena muito interessante. Mas o que o impressionava era o seu estado civil. Amar uma mulher casada parecia-lhe uma delí­cia completa. Às cinco horas da manhã, estava na banheira. Esfregou-se com um brio sem precedente. E, depois, pôs per­fume no peito, nos braços, nos cabelos. Ao apanhar a meia, lembrou-se de passar talco nos pés. Às sete horas, de terno bran­co, estava no local, nervosíssimo. A última recomendação do Jordão fora a seguinte: — “Primeiro, dá-lhe um beijo no ouvi­do. Mas olha: — um beijo de estalo”. A obsessão, a idéia fixa do amigo, era a orelha feminina. Argumentava: — “Há mulhe­res que só têm sensibilidade nas orelhas!”. Irene chegou às no­ve e cinco, exatamente. Vinha num estampado leve, juvenil, que a tornava irremediavelmente garota. Antes de se deixar beijar, disse-lhe num alegre desafio:
— Tu és sagrado e és o segundo homem que eu conheço. E não quero sair daqui desiludida!
Naquele momento, Mário não se esqueceu do beijo no ou­vido, que o outro preconizara com tanto empenho. Procurou eletrizá-la: — “Olha que eu sinto cócegas!”. Mas o rapaz, no desvario, teimou; e ela, fora de si, dava gargalhadas, que todo o andar havia de escutar. Uma hora e quarenta minutos depois, estava ela diante do espelho, refazendo a pintura dos lábios. En­tão, Mário, que a contemplava numa espécie de febre, aproxi­mou-se.
— Explica uma coisa: — se você vive bem com o seu ma­rido, se ele não a maltrata, por que fazer isso? Por quê?
Sua curiosidade o dilacerava. Ela acabara de maquilar-se; levantou-se. Face a face com Mário, respondeu, fixando nele os olhos verdes e frios.
— O único homem que tinha me beijado, que eu enfim conhecia, era meu marido. — Pausa e continua: — Quis conhe­cer outro, fazer uma experiência com outro. Questão de curio­sidade.
Mário recuou, lívido.
— Quer dizer que eu sou a experiência? Eu sou a cobaia?
Na sua fúria, segurou-a pelos braços:
— Agora vais dizer, Ouviste? Qual foi o resultado da expe­riência. Anda, diz!
Respondeu, tranqüilamente, sem medo.
— O pior possível. Você não chega aos pés do meu mari­do. Foi a primeira e a última vez. De agora em diante, nem vo­cê, nem outro idiota põe a mão em cima de mim.
Saiu de lá, sem olhá-lo, e desiludida do pecado. Nos dias que se seguiram, ele a perseguiu como um louco, pelo telefo­ne. Mas, assim que reconhecia a voz, Irene desligava sumaria­mente. Até que, um dia, deu com a garota na rua do Ouvidor; pôs-se a acompanhá-la. Como ela o repelisse, rosnou: — “Sua mascarada!”. A pequena, então, meteu-lhe a bolsa na cara.

Um comentário:

Kelly disse...

Muito bom os textos que posta, legal vi aqui!

=D