sábado, 4 de julho de 2009

DIVINA COMÉDIA

No fim de sete anos de matrimônio, o único vínculo do ca­sal eram os cravos do marido, que Marlene gostava de espre­mer. Fora esta distração profunda e imprescindível, não havia mais nada. Debaixo do mesmo teto, cercados pelas mesmas pa­redes, eles se sentiam como dois estranhos, dois desconheci­dos, sem assunto, um interesse ou um ideal comum. E, como não tinham filhos, a inexistência de criança aumentava o tédio. Até que, um dia, Godofredo toma coragem e ataca, de frente, o problema da monotonia conjugai:
— Sabe qual é o golpe? O grande golpe? A solução batata?
— Qual?
E ele:
— A separação. Que é que você acha? Vamos nos separar?
No momento, Godofredo estava com a cabeça no colo da mulher. Muito entretida, Marlene coçava e catava os cravos do marido com inenarrável deleite. O rapaz insiste:
— Como é? Topas?
Ora, Marlene estava entregue a um mister que lhe parecia de suprema volutuosidade. Justamente acabava de fazer uma des­coberta da maior gravidade. Com água na boca, anunciou:
— Achei um formidável! Grande mesmo!
E não sossegou enquanto não completou a extração do cra­vo monumental. Satisfeita, eufórica, vira-se, então, para Godo­fredo:
— O que é que você perguntou?
Ele repete:
— Vamos nos separar?
A princípio ela não entendeu:
— Separar?
Godofredo confirma: “Exato”. Sem horror, sem drama, apenas surpresa, ela indaga: “Separar por quê? A troco de quê? Sinceramente, não vejo razão”. Sóbrio, mas firme, ele protesta:
— Razão há. Tenha santíssima paciência, mas há. Você quer ver como há? Nossa vida é duma chatice inominável. Te juro o seguinte: — não há no mundo uma vida mais sem graça, mais besta do que a nossa. Há? Fala francamente.
Marlene parece disposta a uma segunda pesquisa no rosto do marido. Pergunta, meio distraída:
— Você me dá três dias pra pensar?
Godofredo faz os cálculos:
— Três dias? Dou.

A VIZINHA

Na história matrimonial de ambos, não havia a lembrança de um atrito, de um incidente sério, de um ressentimento. Eles se aborreciam juntos, eis tudo. Para Godofredo, a monotonia era um motivo mais do que suficiente para a separação. Já Mar­lene, que respeitava mais a opinião dos parentes e vizinhos do que a do próprio Juízo Final, duvidava um pouco. De qualquer maneira, como era uma mártir, uma Joana d’Arc do tédio, é pos­sível que acabasse concordando. Mas aconteceu uma coincidên­cia interessante: no dia seguinte, conhece Osvaldina, sua nova vizinha. Conversa vai, conversa vem, e Osvaldina, sua vizinha, começa a pôr o seu marido nas nuvens.
— Esposa tão feliz como eu, pode haver. Mas duvido!
Isto foi o princípio. Formara-se um grupo de mulheres na calçada. E Osvaldina continuou, no mesmo tom de comício: “Es­tou casada há cinco anos. Muito bem. Vocês pensam que a mi­nha lua-de-mel acabou? Que esperança!”. Houve em derredor um assombro mudo e, possivelmente, um despeito secreto. Uma lua-de-mel assim infantil e infinita era um fato sem precedente naquela rua, onde o fastio do matrimônio começava ao térmi­no da primeira semana. E a fulana prosseguia, cada vez mais cheia de si e do marido:
— Jeremias me beija, hoje, como na primeira noite etc. etc.
De noite, quando Godofredo chegou, Marlene estava in­dignada. Contou-lhe o caso da vizinha e explodiu:
— Uma mascarada! Pensa que é o quê? Melhor do que nin­guém? Ora veja!
Godofredo rosna:
— Deixa pra lá!
Mas ela estava numa revolta sincera e profunda:
— Você conhece o marido dela? Viu? É um espirro de gen­te, um tampinha! E vou te dizer mais: não chega a teus pés, não é páreo pra ti!
De cócoras, ao pé do rádio, Godofredo estava procurando uma estação. Súbito, a mulher vira-se para ele. Foi misteriosa:
— Ela não perde por esperar! Vou tomar as minhas provi­dências! Quando quero, sou maquiavélica!

MUDANÇA

De manhã, quando o marido ia sair, ela avisou: “Vou te le­var ao portão”. Ele, que enfiava o paletó, espanta-se: “Que pia­da é essa?”. O espanto era natural, considerando-se que, após dez dias de lua-de-mel, ela jamais rendera ao marido semelhan­te homenagem. Interpelada por Godofredo, eleva a voz:
— Piada por quê, ora bolas? Você não é meu marido? De­vo tratar meu marido a pontapés?
Ele, sem entender patavina, rosna:
— É fantástico!
E vai saindo na frente. Então, Marlene, dando-lhe o braço, exige: “Presta atenção. Lá fora, vou te beijar, percebeste?”. Hou­ve no portão o que o próprio Godofredo chamaria depois de um verdadeiro show. Marlene dependurou-se no braço do es­poso e deu-lhe um beijo cinematográfico na boca. Em seguida, enquanto o espantadíssimo Godofredo afasta-se, ela, num quimono rosa, debruçada no portão de madeira, esvazia-se em adeusinhos com os dedos.
A coisa fora tão insólita que, da cidade, o rapaz bateu o te­lefone para casa, fulo. Começou grosseiramente: “Você bebeu? Acordou com os azeites? Que papelão foi aquele?”.
Marlene engrolou as palavras. Ele insistiu:
— Há uns duzentos anos que tu não me beijavas na boca. Por que esse carnaval?

EXPLICAÇÃO

Quando voltou do serviço, e pôde conversar com a espo­sa, Godofredo soube de tudo. Quem tomara a iniciativa de pro­porcionar aos vizinhos e eventuais transeuntes cenas amorosas ao portão fora a nova vizinha. Osvaldina, com efeito, dava com o marido um espetáculo de incomensurável chamego. Marlene vira aquilo e se doera. Prometera de si para si: “Eu te dou o tro­co!”. E dizia agora ao esposo:
— Essa lambisgóia me atira na cara a sua felicidade. Pensa, talvez, que é a única esposa amada. As outras não são, só ela é que é. Mas comigo não, uma ova!
Devidamente esclarecido, Godofredo esbravejava, por sua vez: “Você resolveu dar um espetáculo e quem paga o pato sou eu? Exatamente eu?”. Exaltada, andando de um lado para o ou­tro, Marlene estaca: “Você é marido pra quê, carambolas?”. E ele consternado:
— Mas, criatura, raciocina! Pensa um pouco! A gente não estava combinando o desquite? Separação?
Só faltou bater no marido:
— Você pensa que eu vou dar o gostinho a essa cavalheira? Se eu me separar, ela vai mandar repicar os sinos, vai espalhar que eu fracassei como mulher. Não, nunca! Você não casou co­migo? Meu filho, aqui no Brasil não há divórcio, compreendeu? Agora agüenta!
Ele, pasmo, lívido, abria os braços para o teto:
— Essa é a maior! É a maior!

RIVALIDADE

E, então, todas as manhãs, era um duplo show de indescri­tível felicidade conjugai. No portão fronteiro, Osvaldina atra­cava-se ao esposo e submergia-se nas demonstrações mais des­lavadas. Beijava-o como se o pobre homem fosse partir para a Coréia ou coisa que o valha. Por sua vez, Marlene não ficava atrás. Como os dois maridos saíssem quase na mesma hora, os dois espetáculos foram muitas vezes simultâneos. A princípio, Godofredo, envergonhado da comédia, quis relutar. Mas Mar­lene foi intransigente. Definiu em termos precisos a situação:
— O negócio é o seguinte: aqui, dentro de casa, você po­de me tratar a pontapés. Mas lá fora, não. Lá fora, eu quero, eu faço questão que você banque o apaixonado até debaixo d’água, sim? Eu nunca te pedi nada. Te peço isso!
Godofredo coçava a cabeça impressionado. Mas era um bom sujeito, doce de caráter, fraco de coração. Compreendia que, para Marlene, aquela misteriosa mistificação matinal era um problema de vida e morte. Suspirou, arrasado:
— ok! ok!

AMOR DE VERDADE

Todos os dias, ela o instigava: “Vamos embasbacar essa gen­te, meu filho, conta pra eles que tu me amas com loucura e vice-versa”. Pouco a pouco, o espírito de concorrência, de rivalida­de, foi se apoderando de Godofredo. À noite, depois do jantar, os dois saíam num agarramento, numa inconveniência de na­morados. Já se rosnava na rua: “Aqueles dois são impróprios para menores!”. Simulavam também, no cinema, um falso assanhamento que indignava as pessoas próximas. Em casa, tran­cados, tiravam a máscara e agiam com a maior circunspeção. Mas tanto fingiram que, uma noite, a portas fechadas, ele se vi­ra para a mulher: “Dá cá um beijinho”. Então espantado, in­quieto, Godofredo saboreia o beijo, como se lhe descobrisse, subitamente, um sabor diferente e mágico.
Levanta-se e vem, transfigurado, beijar sôfrego e brutal a pequena. Arquejante, balbucia:
— Gostei.
Pronto. A partir de então, começaram uma nova e inenar­rável lua-de-mel.

Um comentário:

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

nelson rodrigues é o autor mais atual de todos os tempos...

impressionante