sexta-feira, 4 de setembro de 2009

CAPÍTULO XV

Sim, teve mêdo, espanto e, sobretudo, mêdo. Que­ria falar e não tinha voz. Ao mesmo tempo experimen­tou uma sensação de velhice súbita. Olhou as próprias mãos como se elas tivessem envelhecido, de repente. Balbuciou sem cólera:
— Letícia, escuta: — não pode ser, Letícia!
A sobrinha, com o rosto mergulhado nas duas mãos, soluçava. Com a mão trêmula, Dr. Arnaldo puxou uma cadeira; sentou-se de frente para a môça:
— Olha pra mim, Letícia, assim, olha. Agora res­ponde: — minha filha está grávida de Zózimo?
E ela:
— De Silvio.
Exaltou-se de nôvo. Põe-se de pé. Súbito, olha a porta. Fora de si, vai lá e torce a chave. Pensa: — “Ela não sabe. Ninguém sabe. Só eu sei!” Junto da porta, agarrado à bengala, pensa ainda: — “Ou está mentin­do?” Toma-se de um ódio sem motivo contra a sobrinha que lhe dera a notícia. Aproxima-se, com um passo pesado, quase se arrastando. Senta-se novamente. Le­tícia amassa o lencinho que tem a inicial bordada. Êle vai num crescendo:
— Por que Sílvio? Por que exatamente Sílvio e não Zózimo ou qualquer outro?
Chora:
— Foi Sílvio!
Berra:
— Você só sabe dizer: — “Foi Sílvio”! Mas não havia nada entre os dois! Fala! Havia?
Ora sentava-se, ora erguia-se para sentar-se nova­mente. Imaginava: — “Lá fora, hão de ouvir nossas vozes! As velhas estão assanhadas, mas que se danem!” E na sua fúria, disse de si para si: — “Todas as velhas são malucas!” A saliva era uma espuma no canto da
— Olha, Letícia! Para mim, nesse caso, a gravidez é um detalhe! — e repetia: — Por uma razão, que só eu conheço, a gravidez é um detalhe! Não importa, percebeste? A gravidez não importa — estás ouvindo?
O lencinho monograma estava aberto no seu regaço. Atônita pensava: — “Está com um olhar de lou­co”. Disse, crispada:
— Estou ouvindo.
Arquejava:
— Portanto, escuta: -— se me disseres que minha filha está grávida de outro e não do Sílvio! Mas de outro, ouviste? Se disseres isso, eu cairei, aqui, agora, agora mesmo, de joelhos, assim, olha!
Realmente caía de joelhos pensando: — “Estou ve­lho !” Abria os braços para o alto e enchia a biblioteca com a sua voz:
— Graças, meu Deus, porque minha filha está grá­vida de outro e não de Sílvio!
Há uma pausa. Dr. Arnaldo ergue-se. O pêso que sentia nas costas, a dor das articulações, a vista turva, era velhice. Supunha que as velhinhas estivessem amon­toadas na porta, escutando e, na certa, espiando pelo buraco da fechadura. “As velhas são loucas”, repetia para si mesmo e experimentava um envenenado prazer nessa fixação. Dirige-se para a sobrinha. Torce a bôca na súplica:
— Diz que não foi Sílvio, diz!
Letícia exaltou-se também:
— Mas, titio! Foi Sílvio, titio! Sílvio!
Dr. Arnaldo senta-se. Fala para si mesmo, a meia voz:
— Eu não entendo. Gravidez sem um flerte, sem um namôro, sem amor?
E ela, quase gritando:
— Êles se gostam, titio!
Mas êle continuava, sem lhe dar atenção:
— Amanhã, Engraçadinha vai comigo ao médico. Balbucia:
— Médico?
Vira-se para a sobrinha:
— Ou você pensa que vou deixar êsse filho nascer — Trinca os dentes: — De mais a mais, pode ser men­tira. Mulher mente muito. Com motivo, ou sem mo­tivo, mente. O médico vai me dizer se ela deixou de ser virgem. E se há tal gravidez, direi: — “Tira!”
Em pé, numa cólera maior, repetia como se o mé­dico estivesse ali, presente, ainda de luva: — “Tira!” Letícia não entendia:
— Mas o senhor, titio, sempre foi contra o aborto! Além disso, tem tempo! Se êles se casarem logo, não precisa sacrificar a criança!
O velho aproxima o rosto da sobrinha para que ela visse bem de perto o riso encharcado e hediondo:
— Sua burra, escuta! Qualquer criança pode nascer, menos essa! Essa, nunca! E nem se trata de casamento, nem de gravidez. Você não percebe. Mas eu sei. Êle sabe!
Aponta para o alto: —”Deus sabe! Êle está comi­go, porque sabe!” Falava de Deus, como de um cúm­plice . Seu tom agora era baixo, caridoso e ignóbil. Dominada pela proximidade dessa cara, Letícia não dizia uma palavra. Tinha-lhe mêdo. Era um tio nôvo que estava diante de si. Então, a moça pensou no sonho que Engraçadinha tivera e que lhe contara. No tal sonho, a prima ia, através de contrações sucessivas, expelindo gatinhos. E agora o Dr. Arnaldo dava a idéia de uma gravidez igualmente sobrenatural e abjeta. Letícia tem uma histeria:
— Titio, é sua filha! É seu neto!
Agarrou-o. Êle a empurra violentamente. Baixa a voz:
— Deus está dizendo “tira!”.
Olha-o: — “Enloqueceu”, pensava. E, de repente, começa a sentir uma pena intolerável desse homem, percebe que êle se tornou velho, pela primeira vez velho, de uma velhice maligna e devoradora. Não teve coragem de dizer-lhe: — ‘“Titio, eu gosto muito do senhor, gosto mais do que antes, sim, titio?” Foi neste momento que bateram na porta. Dr. Arnaldo volta-se num movimento de ira:
— Não te disse? Estavam ouvindo na porta! São as velhas! Cheiram os lençóis, sabem tudo!
Foi abrir a porta. Berra, para a tia Ceci: — “Que é?” A outra responde, com sua voz de criança morta que baixa em Centro Espírita:
— Zózimo quer falar com você.
Estupefato, repete:
— Zózimo? Olha, faz o seguinte: — diz que eu atendo já.
Tia Ceci afasta-se e Dr. Arnaldo volta com um nôvo ânimo:
— Por essas e outras, é que eu sou fatalista! Só acredito no destino! Só existe o destino! E não é uma coincidência? Que êle apareça agora? Vai, meu anjo, sai um pouco! Quero falar com essa besta!
Veio levá-la até a porta. Antes de sair, Letícia baixa a voz:
— É sua filha! Seu neto!
E êle transfigurado:
— Eu sei, eu sei! Só farei o que Deus quiser, o que Deus mandar!
Aperta a mão do velho:
— Acredito no senhor. Sei que o senhor é bom.
Dr. Arnaldo dá-lhe um tapinha no rosto:
— Manda o Zózimo aqui, êsse animal!
Vem sentar-se, decidido: — “Amanhã, o médico vai-me raspar a criança!” Deus estava com êle, a seu lado. E, novamente, pensa no noivo da filha: “Como é que êsse cavalo vai deixar outro passar-lhe a perna? Êle é que devia ser o pai! Ah, se a gravidez fôsse de Zózimo e não de Sílvio!” O seu desprêzo por Zózimo foi mais profundo do que nunca. E já lhe parecia que na infidelidade o culpado era a vítima, o adúltero o enganado. Teve uma satisfação doloríssima: — “Bem feito que êle já comece com um bom par de chifres!” Note-se a incoerência total com todos os seus critérios anteriores. De fato, Dr. Arnaldo sempre fôra de pare­cer que a infiel devia ser arrastada pelos cabelos, e despida na rua! Zózimo pedia licença e entrava. Dr. Ar­naldo assumiu, de nôvo, o ar de retrato oficial:
— Como vai o ilustre? Mas sente-se!
Chamava-o de ilustre com uma afetuosa ironia. Então, aquêle rapaz, que estava continuamente enxu­gando as mãos no lenço ordinário, começou a falar em Engraçadinha: — “Imagine o senhor, que eu não fiz nada e ela está zangada comigo”.. Ao mesmo tempo divertido e dilacerado, Dr. Arnaldo não perdia uma palavra: “Só existe o destino”, pensava. Zózimo estava falando na aliança devolvida e a exibia na palma da mão. Dr. Arnaldo interrompe bruscamente:
— Escuta cá: você gosta mesmo de Engraçadinha? Gosta de verdade?
— Venero!
Aquêle “venero” surpreendeu o velho. “Veneração sexual!” Praguejou interiormente. Continuou, cada vez mais incisivo:
— Mas espere. Não falo em sexo. Refiro-me ao amor. Você tem por minha filha um amor como eu entendo: — um amor elevado, tem? Responda, jovem:
— O que é que você faria por minha filha?
— Tudo!
O velho atalha: — “Tudo o quê? É vago! Vou lhe dar um exemplo. É uma hipótese, compreendeu? Di­gamos que você faça uma viagem. Sim, uma viagem. Passa uns meses fora e quando volta: — é um exemplo grosseiro, mas serve. Ao voltar você encontra sua noiva grávida. Não vai acontecer, é claro. Grávida de outro, percebe? Que faria o amigo? Entenda: — sua noiva vai ter um filho de outro. Qual seria sua reação? Va­mos, meu amigo. Emudeceu? Então, você não ama. Você não conhece o amor! Mas responda!”
Zózimo ergue-se, lentamente. E, súbito, começou a berrar.

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