sábado, 3 de outubro de 2009

CAPÍTULO XXXI

Durante o jantar, Dr. Arnaldo observara, com uma surprêsa inquieta, que a filha e a sobrinha esta­vam tristes. Tomando sopa, êle perguntava de si para si: — “Será o casamento?” Talvez sim, talvez não. O velho tinha um hábito levemente irritante: não to­mava uma colher de sopa sem que, em seguida, en­xugasse os lábios com o guardanapo. Êle admitiria a tristeza de Engraçadinha. Não gostava do futuro ma­rido. Mas Letícia amava Sílvio. Enxugando os lábios mais uma vez, dirigiu-se a Letícia:
— Amanhã, vou falar com tua mãe.
Letícia balbucia:
— Ótimo.
Êle sentia como se, de súbito, tivesse caído sobre ambas a mesma, exatamente a mesma tristeza. “E não falam!” Era a exclamação interior do velho. Arrisca a pergunta, depois de encostar ligeiramente, nos lábios, o guardanapo:
— Mas que é que há? Alguma novidade? Você, En­graçadinha?
A pequena estremeceu. Ergueu o rosto. Ela estava pensando naquele exato momento, pensando que se­ria ou a amada ou, simplesmente, a testemunha. “Mas eu não posso amar”, repetia para si mesma, com uma dor surda: — “Sílvio é meu irmão”. Poderia ver, ape­nas ver o ser amado traindo. Ver e nada mais; apenas ver! Quando o pai a chamou, toma um susto. Balbu­cia atônita:
— O quê, papai?
Êle, já impaciente, abrindo o guardanapo sobre as coxas magras, dá-lhe com certo humor um breve pito também extensivo à sobrinha:
— Você está jururu, minha filha! E por quê? Sim, por quê? Não há motivo, ou há? Há motivo? Você, Letícia! Há motivo?
Engraçadinha parecia incerta: — “Mas, papai!” Ao passo que Letícia, caindo em si, foi mais incisiva:
— Absolutamente, titio!
O velho exaltou-se:
— Então, por quê essa cara? Alegria, pessoal! Eu não admito que, no dia em que se marca a data do ca­samento, vocês façam essa cara de entêrro!
Letícia protestou, vermelha:
— Oh, titio!
Insistiu, com certa excitação: “Eu quando fiquei noivo de tua mãe” — virou-se para Engraçadinha; e continuava, na sua embriaguez retrospectiva: — “Foi um grande dia da minha vida!” Continuava a enxugar os lábios com o guardanapo, embora já tivesse acaba­do a sopa; prosseguia: — “Tua mãe foi o único amor que eu tive na vida!” E, como se desafiasse invisíveis opositores, repetiu:
— Único! Por isso eu digo — passou o guardanapo na bôca — digo que se pode perfeitamente, amar uma única pessoa, até morrer!
Faltava com a verdade, mas sem nenhuma cons­ciência da mentira. Só depois dessa preleção emocio­nada (ultimamente andava excitado), é que subita­mente, êle se lembrou que pelo contrário, jamais ama­ra a mulher; e que, ao seu lado, experimentara apenas tédio, ou seja, êsse tédio que êle considerava normal e inevitável no casamento. Na altura da sobremesa, Dr. Arnaldo fêz uma reflexão que o surpreendeu e, mesmo, o consternou: — “Só um débil mental pode casar-se na presunção de que o casamento é divertido, variado ou simplesmente tolerável. É divertido como um tú­mulo”. Essa idéia, que jamais lhe ocorrera, deixou-o estupefato. Estupefato e indignado consigo mesmo. “Eu pensei isso!”, foi seu estupor honesto. Acabara o pêssego em calda, que era uma de suas preferências de mesa. Enxugou ainda uma vez os lábios. Ergueu-se, apoiando-se na bengala:
— Vou ler um pouco.
Era uma inverdade; não ia ler nada. Dava essa desculpa desnecessária para trancar-se na biblioteca. Lá, deitado no divã, com a bengala encostada, entre­gava-se à saudade da “cunhada impossível”. Essa me­ditação solitária era o seu grande momento de cada noite. A caminho da biblioteca, pensou, subitamente e com alarma: — “O lar, êsse divertido túmulo”. Dir-se-ia que um demônio interior lhe soprava essas coisas abomináveis. Não pensava assim, Deus o livre; mas o tal demônio secreto fazia variações da mesma imagem: — “O lar é arejado como um túmulo”, etc., etc. Fechou-se na biblioteca. Sentou-se no divã, o mes­mo em que a possuíra. Repetia para si mesmo, sen­tindo que o remorso exasperava o seu desejo: — “Eu não devia ter amado a mulher de um irmão”.
Deitado de bruços sobre o divã — e com desespe­rada nostalgia carnal, usava o sofisma que êle próprio achava miserável: — “Se a irmã de minha mulher; se fôsse uma irmã de minha mulher...” Pensando na mulher do irmão, argumentava consigo mesmo: — “O homem mais íntegro pode desejar a irmã da espo­sa. Êle sente que possui êsse direito, quase êsse direi­to...” Trincando os dentes, fala sòzinho, à meia-voz:
— Eu não podia desejar e, muito menos, possuir a mulher do irmão...
O sofrimento tornava o seu prazer quase mortal.

* * *

Parou no meio do quarto. As duas não se mexiam. Ambas de camisola. Êle olha uma e outra. “Eu amo Letícia”, era o que dizia a si mesmo. E, agora, que es­tava ali, no quarto iluminado, entre as duas, espanta­va-se com a violência do próprio prazer. Estava com o rosto contraído e parecia não ter pressa da primeira carícia e da primeira palavra, certo de que o som da própria voz ou o esboço de um único gesto poderia deflagrar tôda a volúpia ainda contida. Nem Engraçadinha, nem Letícia entendiam o fio da navalha caindo entre ambas.
Aproxima-se de Letícia. Mas vira-se bruscamente para Engraçadinha. Baixa a voz:
— Chega aqui.
E para Letícia:
— Te amo, Letícia.
Estava rouco de angústia. Parecia-lhe incrível que, entre duas mulheres — uma para ser amada, outra para ser traída — um homem pudesse ter uma eufo­ria assim monstruosa. Agora está entre Engraçadinha e Letícia (e nem uma, nem outra sabem qual vai ser a possuída e qual a testemunha); uma delas balbucia:
— Essa navalha!
Então, êle encosta a lâmina, muito de leve, no ros­to de Engraçadinha. A menina experimenta um terror inefável. Sílvio faz o mesmo em Letícia. Êle desejaria dizer-lhes que o simples casal quebra o êxtase amo­roso. É preciso alguém mais: a testemunha! Passara o dia sob a obsessão delirante da testemunha. Repetia para si mesmo: — “Alguém vendo, alguém...”
Fala baixo:
— Essa navalha. Não é linda? Engraçadinha, não é linda?
Balbuciou:
— Linda.
E êle, agora, para Letícia:
— Se não fôsse essa navalha... — Pára, com di­ficuldade de expressão: — Eu posso fazer tudo agora que tenho uma navalha.
Letícia empurra Engraçadinha:
— Beija. Sílvio! — e repetia, lívida de volúpia: — Beija, anda!
O rapaz põe a navalha debaixo do travesseiro. Volta-se para a prima. Quer enlaçá-la. Ela, porém, num movimento inesperado e ágil, desprende-se. Está agora de pé e recua:
Levanta-se também. Ao mesmo tempo, Letícia er­gue-se e, ràpidamente, coloca-se detrás da prima. Com uma expressão de voracidade exultante, êle exclama (sem todavia altear muito a voz):
— Segura, Letícia!
Já se entendiam sem palavras. Quando Letícia passou por Engraçadinha, Sílvio compreendeu que a outra queria dominar a prima por trás, prender-lhe os braços e torná-la, assim, indefesa e derrotada. Sílvio sente uma euforia cruel. Imagina que a noiva quer ver o ser amado traindo.
O rapaz avança:
Atrás de Engraçadinha, Letícia pede:
— Beija! Beija!
Aquela resistência (ou simulação de resistência) torna ainda mais intensa a voluptuosidade. Já Sílvio e Letícia teriam preferido que Engraçadinha realmente resistisse, lutasse até perder as fôrças. Aquêle amor não devia ser consentido. Se estivessem num lugar es­pantosamente deserto — onde Engraçadinha pudesse gritar até perder as forças! “Eu seguro Engraçadinha! Eu dou Engraçadinha a Sílvio!” Imóvel, Engraçadi­nha deixa-o aproximar-se. Diz para si mesma: — “Que vontade, ah, que vontade de te beijar”. Dentro da ca­misola sua nudez vibrava. Não se mexia, sentindo-o tão próximo: — “Tu não sabes. Mas eu sou tua irmã! Não posso, Sílvio! Não posso!” E, ao mesmo tempo, queria que êle fôsse implacável. Pensava: — “Sílvio, não im­porta que eu lutei Deixa que eu lute, Sílvio!” E, sú­bito, pensa na navalha. Tem um sonho violento e bre­ve com a lâmina. Se êle encostasse o fio no seu pes­coço. Repetia para si mesma: — “A navalha é linda, oh, meu Deus! É linda!”
Êle a segura pelos dois braços. Engraçadinha sente que não lutará. Espera apenas que Sílvio incline o rosto, que o beijo de Sílvio possua a sua bôca. Ao mes­mo tempo, a mão de Letícia passa pelos quadris da prima.
E o rapaz:
— Meu amor!
Súbito, batem na porta. Chamam da porta:
— Engraçadinha! Engraçadinha!
Era o pai.

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