sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

CAPÍTULO C

Diante da catedral, Engraçadinha esperou uns dez minu­tos. Súbito, o rabo-de-peixe encosta, rente ao meio-fio. Era Luís Cláudio.
Sorria:
— Janet!
Recua, ligeiramente. Olha em torno, no pânico de ser vista. O rapaz empurra a porta e a deixa aberta:
— Vem!
Desesperada, aproxima-se. Diz, sôfrega:
— Aqui, não! Vai!
Transeuntes viram-se para vê-los. Ele segura a mão de Engraçadinha:
— Entra!
Balbucia:
— Não posso! Larga! Não posso!
E ele:
— Está fazendo escândalo! Chamando atenção! Entra!
Perde a cabeça; acaba entrando. Luís Cláudio arranca. Tira um fino vertiginoso de um táxi que dobrava a esquina da Rua Sete. Pede:
— Vê se a porta está fechada. Está?
— Está!
E ele, sem se virar:
— Linda!
A velocidade dava-lhe uma espécie de embriaguez, de sel­vagem alegria. Ao lado, Engraçadinha ia num silêncio atônito. Só quando entraram na Avenida Beira-Mar é que ela se virou:
— Isso não se faz! Você prometeu e olha! Estou zan­gada. Não se faz. Não pensei que você. Foi a última vez. Ouviu? A última! Você só pensa em você e não quer saber se eu sou casada, se eu tenho responsabilidade!
Luís Cláudio interrompe, alegremente:
— Já sei o que você vai dizer. Que tem filho homem, que... Quero um beijo teu!
Foge para junto da porta:
— Fica quieto!
— Escuta, escuta! É um beijo só!
Diz e repete:
— Não, senhor! Nada disso! Tira essa mão. Não quero, já disse! Tira a mão! Luís Cláudio, eu brigo com você. Não estou brincando.
Ele, que a acariciara na curva do quadril, sonha agora, er­guendo a voz!
— Olha, Janet! Estou farto do Cerimonial! Cheio de Itamarati! Janet, você não sabe o que é aquilo! Nem você, nem ninguém sabe o que é o Cerimonial!
Engraçadinha grita:
— Volta! Ou você volta ou pára e eu salto!
Como se não ouvisse, ele continua. Seu rosto toma a ex­pressão de um tédio cruel. Aquela gente não vive, finge que está vivendo. Todo o Itamarati é uma lúgubre imitação de vi­da. Até os contínuos, até os contínuos! Lá os valores eternos são um vinco genial, a cor exata do colete, a gravata por bai­xo ou por cima do colarinho. Súbito, Luís Cláudio vira-se pa­ra Engraçadinha:
— Depois de três dias de Cerimonial, eu mereço, acho que mereço, um beijo. Não mereço?
Pula no assento:
— Aqui! Você parece que não pensa! Quer me beijar com todo o mundo vendo?
Luís Cláudio diminui a marcha:
— Meu bem, olha! Eu não vou te beijar na frente de to­do o mundo. Claro. Vamos fazer o seguinte: presta atenção. A gente dá um pulo na Urca: O Arpoador é longe...
— Olha a hora!
Continua:
— Pois é. Arpoador, não. Vamos à Urca, que é logo ali e... Lá eu quero um beijo. Mas um beijo. Estou farto do Ce­rimonial. Olha, Janet: eu te beijei e não senti teu céu da boca. Hoje, eu quero beijar o céu da tua boca...
Cruza os braços, num arrepio:
— Você fala e eu estou sentindo...
— Diz.
Suspira:
— Já estou sentindo cócega no céu da boca.

*

Na delegacia, alguém cutuca o Amado Ribeiro. O repór­ter vira-se e faz um alegre escândalo:
— Olá, Phocion!
Era o grande advogado criminal do momento. Estava ves­tido da maneira mais inesperada e, mesmo, escandalosa. Ao meio-dia, com um sol de fender edifícios, o Phocion andava de coletes, polainas, colarinho duro, pincenê e bengala. Havia qual­quer coisa de espectral na sua figura (ele fazia questão de ter, em relação os demais, uma dessemelhança agressiva). Ama­do bate-lhe nas costas:
— Colete, com esse calor, meu caro Phocion?
O outro enxuga o suor oleoso:
— É preciso, é preciso! — e rosna, ao ouvido do jorna­lista: — Um pouco de ridículo, bem dosado, é útil na profis­são. Um advogado tem que ser um pouco de opereta, um pou­co de ópera bufa, para impressionar a besta do cliente.
E, então, a um canto da delegacia, enquanto prossegue o depoimento do Leleco, Amado dá o conselho:
— Pega esse caso, Phocion! Está pra ti!
O criminalista bufa de calor: “Se você soubesse como eu abomino esse colete!” E muda de tom:
— Bem. Eu li por alto. Não estou bem enfronhado.
Amado argumenta: “Escuta, Phocion. Eu sei que você é maluco por dinheiro ou por publicidade.” Alagado, o advoga­do passa o lenço no pescoço; reage:
— Não exageremos! Não exageremos!
Amado pousa a mão no seu ombro:
— Phocion, eu te conheço! Espera lá! Eu te conheço e olha: eu te dou um mês, ou mais, de cobertura. Ponho até o endereço do teu escritório. É um crime bom, um crime bacana!
O criminalista está de pé atrás:
— Amado, você sabe que eu sou macaco velho. Apren­di a ter medo de todo o crime que tenha pederastia.
Estava sendo sincero. Poucas coisas o Phocion levava a sério no Brasil; uma delas era a Standard; e, outra, a força de certas pederastias bem-sucedidas e fulgurantes:
— O pederasta envolve interesses, escrúpulos, pudores e reações tremendas. Amado, eu te confesso: sou advogado, não sou herói. O advogado é o anti-herói — e ri com uma ferocidade jucunda. — Se eu fosse herói não andava vestido assim. Esse ridículo é esforço, é premeditação, é sacrifício!
O repórter não dá o braço a torcer:
— E a publicidade, Phocion? Publicidade pra burro!
Phocion, meio estrangulado pelo colarinho, geme:
— Vamos fazer o seguinte: leva o rapaz no escritório, ve­remos. De beiço, não faço. Alguma coisa tenho que levar. E deixa eu ir. Espeto esse negócio de pederastia.
Amado acompanha-o até a porta. Phocion vai dizendo:
— Eles estão infiltrados em toda a parte. Nunca o homem foi tão pouco homem e nunca a mulher foi tão pouco mulher.

*

Pálida, Silene sente a tentação. Letícia ensopa o lenço de éter:
— Cheira! Um pouquinho! Cheira! Só um pouquinho!
Aquela nudez, que a perseguia, exaspera Silene. Foge:
— Põe a roupa!
A outra estende o lenço:
— Cheira!
Letícia não entende o medo selvagem. Na obsessão do nu, Silene pula a cama e sai do outro lado. Repete, com fúria:
— Põe a roupa! Primeiro, põe a roupa!
Ofegante, Letícia pergunta:
— Parece que tem medo de mim, por quê?
Disse, apenas:
— Veste, anda, veste.
Sem desfitá-la, Letícia põe o lança-perfume em cima da cama. Pensa, com desespero: “Ela quer. Eu sei que ela quer. Finge que não, mas quer.” Em silêncio, apanha o quimono e, por um momento, parece sentir a nostalgia da própria nudez.
Vestida, sorri (com sacrifício):
— Vem agora.
Silene faz, lentamente, a volta da cama. Letícia encharca, novamente, o lenço:
— Toma e experimenta.
Estende a mão. Está dilacerada de voluptuosidade. Bal­bucia:
— Vou cheirar só um pouquinho.

*

Encosta o automóvel. Passa o braço em torno de Engra­çadinha:
— Chega pra cá. Chega. Assim.
Pede, num sopro:
— Meu bem, olha a hora. Não posso me demorar. Moro longe.
E ele:
— Respira em mim. Quero sentir o gosto de tua boca.
Engraçadinha soluça:
— Teu beijo me perde. Mas escuta. Por que é que hoje, fala!, por que é que hoje você cismou com o céu da boca? Olha como eu estou: toda arrepiada: Querido, não, não. É bom de­mais! Querido, você me põe louca. Não, amor! Aqui não! Aqui não pode! Só o beijo, amor, só o beijo! Você prometeu, queri­do, você prometeu!

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